Hallux Valgus ou Joanete para os amigos

Diogo Neves Gameiro
Médico Interno de Ortopedia (3º ano de Internato) | Hospital Distrital Figueira da Foz

Hallux valgus ou vulgo joanete é uma deformidade tridimensional frequente, que se caracteriza pela má posição da 1ª articulação metatarsofalângica do pé. Esta deformidade consiste no desvio lateral/em valgo do 1º dedo do pé (hallux), isto é, desvio do hallux em direção ao dedo mínimo, e desvio no sentido oposto (medial) do 1º osso metatarso.

Esta alteração leva ao desenvolvimento de uma proeminência óssea (bunion) que tem muitas vezes uma bursa a envolvê-la e pode inflamar (bursite) com a utilização repetida de calçado apertado. Esta deformidade está muitas vezes associada a outras alterações, nomeadamente, dedos em garra e/ou em martelo, encurtamento do tendão de Aquiles e pé plano.

A causa desta doença parece ser multifatorial, com fatores extrínsecos e intrínsecos envolvidos na patogénese da doença. Os fatores extrínsecos incluem o calçado, o trauma repetido (como por exemplo, o ballet), a sobrecarga mecânica repetida, obesidade e a realização de caminhadas longas. Os fatores intrínsecos incluem fatores genéticos, sexo (sendo 10 vezes mais frequente no sexo feminino), idade e aspetos anatómicos (metatarsus primus varus, pé plano, forma da cabeça do metatarso, obliquidade da articulação cuneometatársica, hipermobilidade do 1º raio, laxidez ligamentar e músculos do hallux).

As queixas mais frequentes são a dor, vermelhidão (quando existe bursite), calosidades, a dificuldade em encontrar calçado adequado e a própria deformidade.

O diagnóstico é feito através da observação do pé, mas os exames de imagem, nomeadamente as radiografias, são importantes para a avaliação da deformidade e para o planeamento cirúrgico.

A principal indicação para o tratamento desta patologia é a dor.

O tratamento conservador desta patologia (não cirúrgico) não corrige a deformidade, mas pode aliviar os sintomas. Este passa pela alteração do calçado, a utilização de ortóteses noturnas, espaçadores interdigitais entre o 1º e o 2º dedos do pé, a proteção do bunion, a utilização de anti-inflamatórios não-esteróides e a aplicação de gelo.  Este tratamento é particularmente reservado a doentes com patologia neuromuscular ou com contraindicação cirúrgica.

O tratamento cirúrgico é o gold-standard nesta patologia. De grosso modo, os procedimentos envolvem a buniectomia (remoção do bunion), libertação das partes moles envolvidas na deformidade (libertação da cápsula articular da articulação metatarsofalângica, tendão adutor do hallux e ligamento sesamoide) e procedimentos sobre o 1º metatarso e/ou falange proximal (cortes no osso para realinhamento do mesmo – osteotomia) e/ou procedimentos sobre as articulações envolvidas nesta deformidade (fusão das articulações metatarsofalângica e/ou tarsometatársica – artrodese).

Existem mais de 100 procedimentos cirúrgicos descritos, cada um com as suas vantagens e desvantagens, sendo que as indicações variam consoante o grau de deformidade, a presença ou não de artrose, hipermobilidade da articulação cuneometatársica, bem como da preferência do próprio cirurgião.

Os procedimentos cirúrgicos podem ser realizados de forma aberta ou de forma minimamente invasiva (percutânea), que tem ganho bastante interesse nas últimas décadas.

A prevenção da deformidade passa pela utilização de calçado adequado e sobretudo pela evicção da utilização de sapatos de salto alto