António Miranda: “Queremos ser o motor e os promotores do trabalho de todos”

António Miranda: “Queremos ser o motor e os promotores do trabalho de todos”

António Miranda, Presidente da Secção para o Estudo da Ortopedia Geriátrica (SEOGER), da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT), esclareceu mais sobre o funcionamento e projetos futuros da entidade a que preside, colocando ainda a lente sobre algumas problemáticas que caracterizam a Ortopedia Geriátrica do ponto de vista clínico.

Quais foram os motivos que levaram à criação da SEOGER?

António Miranda (AM) – O envelhecimento da sociedade tem levado, cada vez mais, a um enorme aumento do número de fraturas “ditas” de fragilidade ou osteoporóticas, no idoso. Mais comummente fraturas vertebrais e do colo do fémur. Estas ocupam muito dos tempos operatórios nas nossas urgências e, por consequência, camas no internamento, sendo necessário, por vezes, preterir outras cirurgias programadas. No idoso, existem muitas alterações fisiológicas que ocorrem com o envelhecimento, afetando a gravidade destas lesões e alterando as estratégias de tratamento e recuperação. É muito importante ter consciência destas condições e compreender os problemas únicos que acompanham os cuidados da população idosa. O envelhecimento aumenta a probabilidade de fratura e existem fatores de risco que devemos conhecer, como a osteoporose ou osteopenia, a artrite, o cancro, a doença de Paget, a artrite reumatoide, etc.  No idoso, grande parte destas fraturas levam a um declínio funcional, institucionalização e morte. Já que cerca de 30% ou mais do nosso trabalho em serviço de urgência é ocupado com estas fraturas , com tendência a aumentar no futuro, impõe-se que a SPOT tenha um grupo de trabalho que estude, analise e se debruce sobre estes temas.

Qual é a sua visão sobre a importância da SEOGER na ortopedia geriátrica no país?

AM – O que pretendemos é, antes de mais, sensibilizar todos para estas situações do dia a dia. Se o ortopedista tem uma face bem visível destes casos quando atende e trata estes utentes, tem a obrigação, não só do seu tratamento conveniente e atempado, mas também o dever de os orientar para consultas de fraturas de fragilidade ou outras e de incentivar em cada instituição, a criação de serviços ou departamentos de Ortogeriatria. Sabemos que grande parte destas fraturas são osteoporóticas, mas o número de doentes referenciados para consultas de seguimento não ultrapassa os 27%, o que é um mau indicador.

Quais são os principais objetivos que a SEOGER pretende alcançar a curto e a longo prazo? Pretende educar não apenas os médicos, mas também o público sobre esta temática?

AM – Evidentemente que pretendemos que estes temas sejam discutidos de forma séria e multidisciplinar em sede de Congresso Nacional, mas pretendemos ir um pouco mais longe, nomeadamente criar modelos de sensibilização para a sociedade em geral e influenciar a tutela da saúde para criar planos (se possível obrigatórios) nas várias instituições, não necessariamente e apenas nos Hospitais. Os cuidados de saúde primários podem ter aqui uma enorme importância. Talvez a criação das novas ULSs possa ajudar e melhorar esta interligação e integração de cuidados. A nível hospitalar, no serviço de urgência, onde os recursos humanos são muitas vezes escassos, temos de incentivar a implementação das “vias verdes” do colo do fémur, utilizando como exemplo, os resultados daqueles que já o fazem. Muitas vezes trata-se apenas de “modificar a organização”, analisando o percurso do utente e realizando os ajustes necessários. Posteriormente, importa que os Hospitais criem espaços para o pós-operatório e para a reabilitação precoce, libertando camas para atender outros doentes, para outros procedimentos. Aqui releva o papel importante da Ortogeriatria. Tentaremos de todas as formas sensibilizar os responsáveis pela saúde em Portugal a disponibilizar meios para isso. Já o temos tentado. Incompreensivelmente não tem sido fácil, mas lá chegaremos.

A secção já tem alguma atividade ou evento planeado para promover a formação e especialização de profissionais de saúde na área da ortopedia geriátrica?

AM – Somos um grupo recém-formado e ainda em fase de organização interna, mas queremos mostrar serviço. Tudo o que referi anteriormente leva o seu tempo a planear, mas depois rapidamente se divulga a informação. Devo, no entanto, referir que o problema não se coloca na formação específica para o tratamento destas fraturas, pois os excelentes profissionais que temos sabem-no fazer muito bem. A questão coloca-se na sensibilização e em criar os meios para um tratamento atempado, o seguimento adequado e especialmente a referenciação, nomeadamente para o tratamento da osteoporose. Há países em que a referenciação de utentes para estas consultas, após ter ocorrido uma primeira fratura, diminuiu em 50% o aparecimento da segunda. As vantagens sobre a diminuição dos custos que isto implicou são muito relevantes, para além do forte impacto positivo na morbilidade e mortalidade dos doentes.

Que desafios prevê que a secção poderá enfrentar?

AM – O maior desafio é, desde logo, reforçar a credibilidade da secção e a sua importância no seio da SPOT. Outro, é o de convencer todos os ortopedistas de que não é apenas importante tratar bem as fraturas. É igualmente importante devolver ao idoso a sua qualidade de vida e, ainda mais importante, prevenir novas fraturas. Não teremos todos a obrigação de tratar a osteoporose, mas temos, pelo menos, a de referenciar. Disto nós temos a obrigação.

Que outros resultados e impactos espera com a secção?

AM – Como membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Osteoporose e Doenças Ósseas Metabólicas (SPODOM) e presidente da Fragility Fractur Network (FFN) Portugal, espero promover iniciativas em conjunto, já que os objetivos são os mesmos. Estamos empenhados em realizar e melhorar os registos destas fraturas e de outros dados epidemiológicos, para evidenciar a importância de tomar medidas como as que referi anteriormente. Atualmente, fico muito descontente por não se dar no nosso país a importância que têm estes temas. Se alguma coisa conseguirmos modificar, cumprimos o objetivo.

Existe alguma mensagem que queira deixar sobre a SEOGER?

AM – Queremos ser o motor e promotores do trabalho de todos. Afinal temos que promover ações junto dos pacientes e das organizações, nomeadamente de gestão pública para priorizarem os cuidados e a prevenção com estratégias de saúde nacional.