04/11/2026
O Grupo de Estudo de Modelos de Organização e Gestão (GEMOG), coordenado por Acácio Ramos e Pedro Dantas, dedicou a sua sessão no 45.º CNOT à valorização do trabalho ortopédico, aos modelos de exercício profissional e aos desafios da gestão dos Serviços de Ortopedia. Sob o tema “O valor do trabalho ortopédico: tabela de atos, modelos de prática e gestão de serviços”, a sessão procurou refletir sobre formas de conciliar a sustentabilidade dos diferentes modelos de prestação de cuidados com a qualidade assistencial, a autonomia profissional e a atratividade da carreira médica.
O programa foi organizado em três momentos. O primeiro, intitulado “Como construo o meu negócio?”, centrou-se nas oportunidades e dificuldades do exercício médico independente, fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e dos grandes grupos privados. Foram abordados os modelos de prática profissional, a diferenciação clínica, a relação com seguradoras e subsistemas de saúde, a sustentabilidade económica e a autonomia na definição do valor dos serviços prestados. A participação da especialidade de Cirurgia Plástica permitiu ainda comparar diferentes modelos de organização da atividade médica no sector privado.
O segundo momento foi dedicado à valorização remuneratória no setor público, com uma análise dos instrumentos disponíveis para melhorar a remuneração dos ortopedistas no SNS, incluindo produção adicional, suplementos, diferenciação técnica, responsabilidades e incentivos associados ao desempenho. A remuneração deverá ser pelos actos realizados ou por objectivos tendo em conta o “value-based healthcare”? Por fim, numa sessão conjunta com a Comissão Sócio-Profissional da SPOT, foi discutida a revisão da tabela de atos médicos da Ordem dos Médicos e a valorização técnica e económica dos procedimentos ortopédicos nos diferentes contextos de exercício profissional.
Para Acácio Ramos e Pedro Dantas, a discussão sobre a organização e a gestão dos serviços era essencial para responder aos desafios atuais da especialidade. Durante muito tempo, a atenção da Ortopedia concentrou-se sobretudo na evolução das técnicas cirúrgicas, dos implantes e dos resultados clínicos, deixando em segundo plano a análise dos modelos organizacionais e da gestão de recursos.
O GEMOG surgiu precisamente para dar maior expressão a esta dimensão, promovendo uma abordagem estruturada aos problemas que condicionavam a prática clínica. Ao longo dos últimos anos, o grupo realizou reuniões em que se discutiu o papel da ortopedia no Serviço de Urgência, a gestão de conflitos e à gestão de crise nos serviços de ortopedia. Em maio de 2026, a segunda reunião anual, realizada em Vila Franca de Xira, centrou-se na Consulta Externa de Ortopedia, abordando as dificuldades de acesso, os diferentes modelos organizacionais e o potencial da tecnologia, incluindo a inteligência artificial.
Dessa reunião resultou a elaboração do documento “Consulta Externa em Ortopedia: Estratégia e Futuro”, que reuniu uma agenda estratégica para a década seguinte e 12 recomendações destinadas a melhorar a organização dos cuidados. Os dados apresentados pelos coordenadores evidenciaram a dimensão dos desafios: em 2025, os hospitais do SNS realizaram cerca de 930 mil consultas de Ortopedia, praticamente o mesmo número do ano anterior, enquanto a lista de espera aumentou 21%, ultrapassando os 162 mil pedidos. Apenas 29% das primeiras consultas referenciadas pelos cuidados de saúde primários foram realizadas dentro do tempo máximo de resposta garantido.
Perante este cenário, Acácio Ramos e Pedro Dantas defenderam a necessidade de repensar os modelos de funcionamento dos serviços, melhorar o acesso dos doentes, reorganizar os percursos assistenciais e promover uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. A transformação digital e a inteligência artificial foram identificadas como oportunidades relevantes, embora a sua implementação devesse ser acompanhada por processos bem definidos, dados de qualidade, liderança clínica e envolvimento dos profissionais.
Outro dos desafios destacados foi a necessidade de passar de uma gestão predominantemente reativa para uma abordagem baseada em dados, planeamento e avaliação de resultados. O objetivo seria conhecer melhor o funcionamento dos serviços, comparar modelos organizacionais e fundamentar propostas de melhoria junto das instituições e dos decisores. Neste percurso, o GEMOG pretendeu também dar continuidade à reflexão sobre a atividade cirúrgica, tema previsto para a reunião anual de 2027, alargando a análise à organização do bloco operatório, às listas de espera cirúrgicas, à produtividade e à qualidade dos cuidados.
Na mensagem dirigida aos participantes, Acácio Ramos sublinhou que a qualidade da especialidade dependia não apenas da competência técnica dos profissionais, mas também das condições organizacionais em que exerciam a sua atividade. “A qualidade da Ortopedia não depende apenas da competência técnica dos seus profissionais, mas também da qualidade dos sistemas em que trabalham”, afirmou.
Por sua vez, Pedro Dantas reforçou a importância de envolver os ortopedistas na discussão dos modelos de gestão e de incentivar a participação das novas gerações nestas matérias. O coordenador apelou à partilha de experiências e à apresentação de soluções para os problemas sentidos nos diferentes serviços, defendendo uma maior aproximação entre a prática clínica e a gestão.
A sessão do GEMOG reforçou, assim, a importância de integrar a organização e a gestão na reflexão sobre o futuro da Ortopedia nacional, promovendo modelos de trabalho mais sustentáveis e condições que permitissem melhorar a resposta aos doentes. Como sintetizaram os coordenadores, “o futuro da Ortopedia não depende apenas de aprendermos a operar melhor. Depende também de aprendermos a organizar-nos melhor”.